A imparcialidade sob suspeita

Escrito por José Maria Rosa Tesheiner. Publicado em Artigos Mar 2001.

Somos muito pouco originais. Cantamos em coro, mesmo quando pensamos estar fazendo um solo. Somos portadores de idéias que não são nossas, mas da sociedade. Quando uma criança fala, revelando conhecimentos muito além de suas experiências, sabemos que está simplesmente repetindo. Essa consciência nos falta, quando é um adulto que fala. Conceitos e valores propagam-se com vírus. Estamos todos infectados por idéias que não são nossas.
Ocorrem-me esses pensamentos, quando leio, na Folha de São Paulo, artigo de Marcelo Coelho, intitulado "A objetividade sob suspeita". Temos idéias iguais, embora em campos separados. De algum modo, bebemos em um fonte comum.

Ele escreve: "Há um tipo de discussão que comunicólogos, professores de jornalismo, críticos de mídia etc. adoram fazer. Diz respeito aos limites da objetividade jornalística. Começa assim: existe manipulação, há notícias tendenciosas e incompletas, o jornal serve a determinados interesses, escolhe-se o que se quer noticiar e o modo de narrar os fatos. Até aí, nada a opor. Mas então surge uma conclusão espantosa, que virou um verdadeiro cacoete intelectual. Trata-se de afirmar que a objetividade é impossível, que a verdade não existe, que tudo é versão e que, se uma notícia seleciona alguns aspectos da realidade, nada indicada que outra selação, outro 'recorete', não seja igualmente valida. Faz-se a crítica da manipulação para, em seguida, cair num relativismo total. E esse, sem querer, termina legitimando qualquer manipulação, uma vez que nega qualquer 'realidade' com a qual a notícia possa ser comparada. Claro, há matizes e sofisticações. Nada é tão caricatural como estou dizendo." (Folha de São Paulo, edição de 28.2.2001).
De minha parte, o que tenho observado no campo do Direito, mais particularmente no do Processo, é que muito se tem insistido na idéia de que a ciência do Direito não é neutra, não servindo a pretensa neutralidade senão para mascarar uma ideologia oculta. Tudo bem. Não hesito em reconhecer que há uma ideologia subjacente em qualquer conceito jurídico. Mas não se pára aí. A pretexto da existência, inegável, de premissas inconscientes, renega-se todo o saber objetivo. Alteram-se as proporções: em vez  de 90% de ciência e 10% de ideologia, fica-se com 90% de ideologia e 10% de ciência. No plano da jurisdição, nega-se a imparcialidade do juiz (que, em termos absolutos, efetivamente não existe), preconizando-se, como desejável, o juiz ativo, parcial, protetor de uma das partes, na essência, um não-juiz.

Compartilhe no:

Submit to FacebookSubmit to Google BookmarksSubmit to TwitterSubmit to LinkedIn
  • Nenhum comentário encontrado

Deixe seu comentário

Postar comentário

0