Hantavírus em navio de cruzeiro mata três passageiros e confunde autoridades no mundo todo
Surto a bordo do MV Hondius mobiliza OMS, que classifica risco global de disseminação como baixo
Três mortes, dezenas de suspeitos e uma investigação que cruza três continentes. O surto de hantavírus a bordo do navio de cruzeiro MV Hondius tem tirado o sono de equipes de saúde na Argentina, na África do Sul e em países europeus. O episódio reacendeu o debate sobre a capacidade de vigilância diante de ameaças virais silenciosas que se escondem em roedores e ganham espaço em ambientes fechados.
No Brasil, a situação é diferente. Até o momento, sete casos de hantavírus foram registrados em 2026, todos sem ligação com o genótipo Andes, a variante que está no centro da crise internacional. Os dois últimos diagnósticos foram confirmados na sexta-feira passada pela Secretaria de Estado da Saúde do Paraná. Um paciente é morador de Pérola d’Oeste, no Sudoeste paranaense, e o outro reside em Ponta Grossa, nos Campos Gerais. Outros onze casos continuam sob investigação no estado, enquanto 21 foram descartados.
O Ministério da Saúde informou que, em 2025, o país registrou 35 casos da doença. Nenhum dos episódios humanos teve transmissão de pessoa para pessoa, um ponto que os especialistas repetem com insistência para evitar pânico desnecessário. A OMS, por sua vez, classificou o risco global de propagação do vírus como baixo, embora reconheça que mais casos podem surgir nas próximas semanas por causa do longo período de incubação.
O navio partiu da Argentina no início de abril. Dias depois, um passageiro faleceu a bordo sem que amostras fossem coletadas a tempo. Um casal holandês também morreu durante a travessia. A origem do contágio fora do navio pode estar ligada a um voo em Joanesburgo, na África do Sul, segundo as autoridades responsáveis pela investigação. Até o momento, seis dos oito casos suspeitos no cruzeiro foram confirmados. Uma mulher alemã, outra passageira cuja origem não foi detalhada e um britânico de 69 anos, que foi encaminhado para uma UTI em Joanesburgo, estão entre os confirmados. O britânico permanece internado sob terapia intensiva.
Maria Van Kerkhove, diretora do Departamento de Prevenção e Preparo para Epidemias e Pandemias da OMS, foi enfática ao afirmar que a situação não se assemelha em nada à pandemia de coronavírus e que não se trata de uma nova crise epidêmica. Um especialista da organização já está a bordo do navio e acompanhará os passageiros até a chegada em Tenerife, ilha espanhola no Atlântico.
A circulação do vírus exige atenção redobrada em áreas com presença de roedores silvestres. O hantavírus se aloja naturalmente em camundongos e ratos que eliminam o patógeno pela urina, saliva e fezes sem jamais adoecer. O perigo para o ser humano está na inalação de aerossóis contaminados, especialmente quando se varrem ambientes fechados sem proteção. Não existe tratamento específico. O manejo é baseado no combate dos sintomas, com suporte de oxigenoterapia, ventilação mecânica e, em casos extremos, diálise e intubação. Profissionais de saúde em risco são orientados a usar luvas, máscaras e óculos de proteção.
O que preocupa agora são as primeiras suspeitas fora do navio. Governos da França, da Holanda e de Singapura anunciaram que estão investigando pacientes que não estiveram a bordo do MV Hondius mas apresentam sinais compatíveis com a infecção. São os primeiros registros da doença em pessoas sem vínculo direto com a embarcação. A OMS notificou todos os países de origem dos passageiros para que monitorem possíveis novos casos.
No Paraná, a Secretaria de Saúde intensificou os trabalhos de campo. A vigilância epidemiológica acompanha roedores silvestres em diferentes regiões do estado, onde já foram identificados nove genótipos de Orthohantavírus ao longo dos anos. A mensagem dos técnicos é clara: quem trabalha em áreas rurais, limpa galpões ou entra em contacto com serrapilheira deve evitar contacto com fezes de roedores e procurar atendimento médico imediatamente ao apresentar febre, dores no corpo e falta de ar.